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Transição Epidemiológica: As Mudanças nas Doenças com o Tempo e o Desenvolvimento Social


1. Introdução: A história contada pelas doenças

Se quisermos entender como as sociedades evoluem, basta olhar para suas doenças.
A transição epidemiológica é, em essência, a história da humanidade narrada pelo adoecimento. Ela mostra como, à medida que as populações se urbanizam, enriquecem e envelhecem, mudam também as principais causas de morte e os desafios da saúde pública.

Formulada por Abdel Omran nos anos 1970, a teoria descreve o deslocamento de um mundo dominado por infecções e desnutrição para outro em que doenças crônicas e degenerativas predominam (Omran, 1971).

Mas, como veremos, o processo não é linear — nem justo. A transição epidemiológica é marcada por desigualdades, retornos inesperados e novas ameaças globais.

2. O modelo clássico: de Omran à complexidade contemporânea

Omran propôs três grandes estágios:

  1. A era das pestes e da fome – altas taxas de mortalidade e baixa expectativa de vida.
  2. A era das pandemias em declínio – com melhorias sanitárias e avanço da medicina.
  3. A era das doenças degenerativas e causadas pelo homem – marcada por longevidade e prevalência de doenças crônicas.

Essa teoria foi pioneira, mas simplificada. Como destaca Kuate Defo (2014), o modelo não captura a diversidade de trajetórias entre países, especialmente nos de baixa renda, onde há uma “dupla carga de doenças” — infecções persistentes coexistindo com diabetes, câncer e doenças cardiovasculares (Defo, 2014).

“Nos países pobres, o passado e o futuro da saúde convivem no mesmo hospital.”


3. A nova realidade: a dupla carga de doenças

Em países como Moçambique, o cenário epidemiológico revela esse paradoxo.
Enquanto HIV, malária e tuberculose continuam a afetar milhões, hipertensão, obesidade e câncer crescem rapidamente, impulsionados pela urbanização e mudanças alimentares (Ciccacci et al., 2020).

Essa “dupla carga” exige sistemas de saúde híbridos — capazes de lidar tanto com emergências infecciosas quanto com o manejo contínuo de doenças crônicas.

Além disso, o aumento da expectativa de vida redefine o perfil epidemiológico global:
as mortes precoces diminuem, mas cresce o número de anos vividos com incapacidade (YLDs), como mostra o novo Epidemiologic Transition Estimate (ETE) index (Gulis & Žídková, 2025).


4. O papel do desenvolvimento social e econômico

O desenvolvimento econômico é um motor poderoso de mudança epidemiológica — mas também um gerador de desigualdade em saúde. Darnton-Hill & Coyne (1998) mostram que a urbanização e o aumento da renda levam à substituição de dietas tradicionais por alimentos ultraprocessados, provocando uma “transição nutricional” paralela à epidemiológica (Darnton-Hill & Coyne, 1998).

Essa transformação cria um novo tipo de desigualdade:
em muitos países, os ricos vivem mais e os pobres morrem mais cedo — de doenças de ricos.

Globalização, sedentarismo e desigualdade são os novos determinantes do risco.
A cada avanço econômico, uma nova epidemia de estilo de vida surge no horizonte.


5. A “terceira transição epidemiológica”: o retorno das infecções

Se a primeira transição marcou o domínio das infecções, e a segunda a ascensão das doenças crônicas, estamos agora vivendo a terceira transição epidemiológica.

Zuckerman et al. (2014) e Harper & Armelagos (2010) argumentam que, com a globalização, mudanças ambientais e resistência antimicrobiana, velhas doenças estão voltando — enquanto novos patógenos emergem com força inédita (Zuckerman et al., 2014); (Harper & Armelagos, 2010).

A COVID-19 é o exemplo mais claro desse novo ciclo: uma crise infecciosa global atingindo sociedades já dominadas por doenças crônicas. Segundo Dye (2014), esse cenário evidencia a interconexão entre as doenças infecciosas e não infecciosas, onde infecções podem aumentar o risco de doenças metabólicas e cardiovasculares (Dye, 2014).

6. As desigualdades globais da transição

Nem todas as populações percorrem o mesmo caminho epidemiológico.
Enquanto países de alta renda já enfrentam os desafios do envelhecimento e das doenças degenerativas, nações de baixa renda continuam presas ao peso das infecções, como sublinha Defo (2014).

Além disso, a migração e o deslocamento populacional criam microtransições dentro de um mesmo território — como evidenciado no estudo de Kelleher et al. (2023) sobre padrões de imigração e mortalidade cardiovascular na Austrália (Kelleher et al., 2023).

Esses dados mostram que a transição epidemiológica é tão social quanto biológica: depende da história, da política e da economia.


7. O futuro da transição: do controle à prevenção integrada

O século XXI nos coloca diante de um paradoxo epidemiológico: nunca soubemos tanto sobre as doenças — e nunca estivemos tão vulneráveis a elas.

Segundo Atiim & Elliott (2016), a próxima geração de políticas de saúde deve adotar uma abordagem ecossistêmica, que considere fatores ambientais, culturais e espaciais na distribuição das doenças (Atiim & Elliott, 2016).

Isso significa integrar vigilância, educação, urbanismo e sustentabilidade em uma nova visão da saúde coletiva — uma transição epidemiológica sustentável, guiada não apenas pelo desenvolvimento econômico, mas pela equidade.


Conclusão: O que as doenças nos ensinam sobre nós mesmos

A transição epidemiológica é um espelho das sociedades. Cada nova fase revela nossas conquistas — e nossos descuidos.

Saímos da era das infecções, entramos na das crônicas e, agora, convivemos com ambas. Mas será que conseguiremos equilibrar desenvolvimento e saúde antes que a próxima transição nos surpreenda novamente?

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