Bem-vindo ao Estude Comigo Epidemiologia. Se você acompanha as notícias climáticas e de saúde recentes, já percebeu que o verão não é mais apenas uma estação de férias e sol. Tornou-se um período de alerta para profissionais de saúde e pesquisadores. O fenômeno das ondas de calor, intensificado pelas mudanças climáticas globais, deixou de ser uma exceção para se tornar uma variável determinante na análise de indicadores de morbimortalidade.
Neste post, vamos mergulhar na relação entre ondas de calor e saúde, analisando como o estresse térmico altera a dinâmica das doenças crônicas e infecciosas, e o que a ciência de dados em saúde nos diz sobre as populações mais vulneráveis.
Sumário
- O que define uma onda de calor na epidemiologia?
- Fisiologia da exposição: Por que o calor adoece?
- Ondas de calor e saúde: Impacto nas doenças crônicas
- Aumento de doenças infecciosas e vetoriais no verão
- Vulnerabilidade social e ilhas de calor urbanas
- Estratégias de vigilância e mitigação
- Conclusão
- FAQ
- Referências
O que define uma onda de calor na epidemiologia?
Para a meteorologia, uma onda de calor é geralmente definida como um período de pelo menos três a cinco dias consecutivos em que as temperaturas máximas excedem a média histórica para aquela região e época do ano. No entanto, para nós, profissionais da epidemiologia, a definição é mais complexa e foca nos desfechos em saúde.
Não se trata apenas de um número absoluto no termômetro. O impacto das ondas de calor e saúde depende da capacidade de adaptação da população local, da umidade relativa do ar e da infraestrutura urbana. Um estudo publicado na The Lancet destaca que a exposição ao calor excessivo está associada a um aumento na procura por serviços de emergência e um pico na mortalidade geral nos dias subsequentes.
Diferente de um surto infeccioso que pode levar semanas para se propagar, o impacto térmico é mais agudo. A análise de séries temporais mostra que a curva de mortalidade costuma subir quase simultaneamente à subida dos termômetros, o que exige um sistema de vigilância de resposta rápida.
Fisiologia da exposição: Por que o calor adoece?
Para compreender a relação entre ondas de calor e saúde, precisamos olhar para a homeostase humana. O corpo humano opera em uma faixa estreita de temperatura interna (em torno de 36,5°C). Quando o ambiente externo se torna hostil, o organismo utiliza dois mecanismos principais de resfriamento: a vasodilatação periférica e a sudorese.
“O estresse térmico ocorre quando o corpo não consegue mais dissipar calor de forma eficiente, levando a um aumento da temperatura central, o que pode desencadear uma resposta inflamatória sistêmica, sobrecarregar o sistema cardiovascular e causar lesão renal aguda.” — Organização Mundial da Saúde (OMS).
A vasodilatação exige que o coração trabalhe com muito mais intensidade para bombear o sangue para a pele. Para indivíduos com reserva cardiovascular limitada, esse esforço extra é o gatilho para eventos adversos. Além disso, a perda excessiva de fluidos e eletrólitos pelo suor aumenta a viscosidade sanguínea, elevando o risco de trombose e eventos isquêmicos.

Ondas de calor e saúde: Impacto nas doenças crônicas
O impacto mais silencioso e devastador das altas temperaturas ocorre sobre as Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT). Dados da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) indicam que a maioria das mortes durante ondas de calor não é registrada como “insolação”, mas sim como complicações de doenças preexistentes.
Doenças Cardiovasculares
Durante episódios de calor extremo, há um aumento significativo nas internações por infarto agudo do miocárdio e insuficiência cardíaca. O esforço termorregulador sobrecarrega o miocárdio. Em idosos, cujos mecanismos de sede e regulação térmica já são naturalmente reduzidos, o risco é multiplicado.
Doenças Renais
A desidratação severa é uma das consequências diretas da má gestão das ondas de calor e saúde. A função renal é severamente afetada, podendo levar à Insuficiência Renal Aguda (IRA). Além disso, observa-se o agravamento de quadros de cálculos renais e infecções urinárias.
Doenças Respiratórias
O calor extremo frequentemente vem acompanhado de ar seco e aumento dos níveis de poluentes atmosféricos (como o ozônio troposférico). Essa combinação é deletéria para pacientes com DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica) e asma, resultando em broncoespasmos e exacerbações agudas.
Tabela 1: Principais Desfechos Clínicos Associados ao Calor Extremo
| Sistema Afetado | Condições Clínicas Comuns | Grupo de Maior Risco |
| Cardiovascular | Infarto, Arritmias, AVC | Idosos, Hipertensos |
| Renal | Insuficiência Renal Aguda, Cálculos | Trabalhadores ao ar livre |
| Metabólico | Desidratação, Distúrbios Eletrolíticos | Crianças, Gestantes, Diabéticos |
| Neurológico | Exaustão térmica, Insolação | Atletas, Idosos |
Aumento de doenças infecciosas e vetoriais no verão
Embora o impacto direto do calor nas DCNT seja alarmante, a relação entre ondas de calor e saúde também se estende às doenças transmissíveis. O verão brasileiro é historicamente o período de pico das arboviroses, mas as ondas de calor intensificam esse cenário de formas específicas.
Dinâmica dos Vetores (Aedes aegypti)
Temperaturas mais elevadas aceleram o ciclo de vida do mosquito. O período de incubação extrínseca (o tempo que o vírus leva para se desenvolver dentro do mosquito antes de ser transmitido) é reduzido. Isso significa que, em verões mais quentes, o mosquito torna-se infectante mais rápido e pica com maior frequência.
Doenças de Veiculação Hídrica
Durante ondas de calor, o consumo de água aumenta e a pressão sobre os sistemas de saneamento cresce. Em áreas com infraestrutura precária, o uso de fontes de água não seguras para banho ou consumo, somado à proliferação bacteriana acelerada pelo calor (como em casos de Salmonella e Vibrio cholerae), eleva as taxas de doenças diarreicas agudas.
Segurança Alimentar
O calor acelera a decomposição de alimentos. No contexto da saúde coletiva, isso se traduz em surtos de Doenças Transmitidas por Alimentos (DTA) em eventos sociais e estabelecimentos comerciais que não mantêm a cadeia de frio de forma rigorosa.

Vulnerabilidade social e ilhas de calor urbanas
A epidemiologia moderna não pode analisar as ondas de calor e saúde sem considerar os determinantes sociais. O impacto do calor não é distribuído de forma equânime pela população.
As ilhas de calor urbanas são áreas metropolitanas que apresentam temperaturas significativamente mais altas que as áreas rurais vizinhas, devido à falta de vegetação e ao excesso de asfalto e concreto. Nestas áreas, as populações que vivem em habitações precárias, com ventilação inadequada e sem acesso a sistemas de climatização, sofrem os efeitos mais severos.
- Idosos e Crianças: Têm sistemas termorreguladores menos eficientes.
- Trabalhadores Externos: Profissionais da construção civil e limpeza urbana enfrentam exposição direta e prolongada ao sol.
- População em Situação de Rua: Totalmente vulnerável às variações ambientais sem meios de mitigação.
É essencial entender que o calor atua como um multiplicador de desigualdades. A falta de acesso a hidratação constante e ambientes resfriados transforma uma condição climática em uma crise de saúde pública.
Estratégias de vigilância e mitigação
Para enfrentar a relação entre ondas de calor e saúde, os sistemas de vigilância epidemiológica precisam evoluir para modelos preditivos. Não basta mais contar casos de internação; é necessário antecipar o evento climático.
- Sistemas de Alerta Precoce (SAP): Integração entre serviços de meteorologia e saúde para avisar a população e preparar os hospitais antes que a temperatura atinja níveis essenciais de perigo.
- Planos de Contingência: Implementação de “centros de resfriamento” em centros comunitários para pessoas vulneráveis.
- Urbanismo Sustentável: Aumento da cobertura arbórea urbana e uso de materiais reflexivos em construções para reduzir o efeito de ilha de calor.
- Educação em Saúde: Campanhas focadas na hidratação e no reconhecimento precoce de sintomas de exaustão térmica (tontura, confusão, náusea).
A análise de dados de satélite cruzada com dados de mortalidade do SIM (Sistema de Informação sobre Mortalidade) no Brasil tem revelado “clusters” de risco que devem ser o foco de intervenções territoriais prioritárias.
Conclusão
A relação entre ondas de calor e saúde representa um dos maiores desafios da epidemiologia no século XXI. O aumento das temperaturas globais não é apenas um problema ambiental, mas uma ameaça direta à estabilidade dos sistemas de saúde e à longevidade das populações.
As ondas de calor:
- Exacerbam doenças crônicas preexistentes, especialmente as cardiovasculares e renais.
- Aceleram a transmissão de arboviroses e outras doenças de transmissão vetorial, através da alteração biológica dos vetores.
- Exigem uma abordagem de vigilância ativa e interdisciplinar, que una climatologia, biologia e ciência de dados.
- Demandam políticas públicas de mitigação que foquem na redução das desigualdades sociais e urbanas.
Como pesquisadores e profissionais de saúde, nosso papel é fundamental na produção de evidências que orientem a adaptação das nossas cidades a essa nova realidade térmica. A saúde coletiva do futuro será, necessariamente, uma saúde resiliente ao clima.

FAQ – Perguntas e Respostas
1. Como as ondas de calor e saúde se relacionam com a mortalidade infantil?
Crianças têm uma área de superfície corporal maior em relação ao peso e produzem mais calor metabólico durante a atividade física, o que as torna mais propensas à desidratação rápida e insolação.
2. Qual é a principal causa de morte durante uma onda de calor?
Embora a insolação seja o desfecho direto mais grave, a maioria das mortes ocorre por agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias crônicas.
3. O que são ilhas de calor e como elas afetam a saúde?
São áreas urbanas com pouca vegetação e muito concreto que retêm calor. Elas impedem o resfriamento noturno, mantendo o corpo em estresse térmico por 24 horas, o que impede a recuperação fisiológica.
4. O calor excessivo pode afetar a saúde mental?
Sim. Estudos indicam aumento de episódios de irritabilidade, ansiedade e até aumento nas taxas de internações psiquiátricas e suicídios durante períodos de calor extremo [6].
5. Como as ondas de calor afetam a transmissão de Dengue?
O calor acelera o desenvolvimento das larvas do Aedes aegypti e encurta o tempo necessário para o vírus se replicar dentro do mosquito adulto, aumentando a eficiência da transmissão.
6. Quem é o profissional responsável por monitorar esses riscos?
É uma atuação conjunta entre epidemiologistas, sanitaristas, gestores de saúde pública e especialistas em saúde ambiental.
7. O uso de ar-condicionado resolve o problema das ondas de calor?
Individualmente sim, mas para a saúde coletiva gera um paradoxo: o uso intensivo libera calor residual no ambiente urbano e aumenta a demanda energética, o que pode agravar as ilhas de calor.
Referências bibliográficas
- Watts N, Amann M, Arnell N, et al. The 2020 report of The Lancet Countdown on health and climate change: responding to converging crises. The Lancet. 2021;397(10269):129-170.
- World Health Organization. Heat and Health. Geneva: WHO; 2018.
- Organização Pan-Americana da Saúde. Mudança Climática e Saúde. Washington, D.C.: OPAS; 2023.
- Rocklöv J, Dubrow R. Climate change: an enduring challenge for vector-borne disease prevention and control. Nature Immunology. 2020;21(5):479-483.
- Thompson R, Hornigold R, Page L, Waite T. Associations between high ambient temperatures and heat waves with mental health outcomes: a systematic review. Public Health. 2018 Aug;161:171-191. doi: 10.1016/j.puhe.2018.06.008. Epub 2018 Jul 12. PMID: 30007545.
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