
Nos últimos anos, o mundo viveu um experimento social sem precedentes. A pandemia de COVID-19 não apenas testou os limites da saúde pública e das economias, mas também desencadeou uma onda global de sofrimento psicológico. Hoje, enquanto tentamos reconstruir uma normalidade, a epidemiologia da saúde mental revela um panorama complexo — e, em muitos aspectos, alarmante — sobre como a ansiedade e a depressão se espalharam, evoluíram e persistem no pós-pandemia.
1. A pandemia como catalisador global de sofrimento psíquico
Estudos em diversos países confirmam um aumento expressivo nos transtornos de ansiedade e depressão durante a pandemia. Uma meta-análise global encontrou prevalências de 28% para depressão e 26,9% para ansiedade entre a população geral (Nochaiwong et al., 2021). Antes de 2020, essas taxas globais eram geralmente inferiores à metade disso.
Esse salto abrupto reflete uma combinação de fatores: medo da infecção, isolamento social, incerteza econômica e o luto coletivo. Como destaca Zhu e colegas, o impacto psicológico da pandemia não se limitou aos infectados — ele atingiu “toda a população, em especial jovens, mulheres e pessoas com menor nível educacional” (Zhu et al., 2022).
“Estamos diante de uma epidemia dentro da pandemia.” – M. Hossain et al. (2020) (Hossain et al., 2020)
2. Os grupos mais vulneráveis: juventude, mulheres e profissionais da saúde
As análises epidemiológicas mostram que alguns grupos sofreram desproporcionalmente. Entre profissionais de saúde, por exemplo, 38% relataram ansiedade e 34% depressão, com 47% apresentando burnout ocupacional (Huang et al., 2023). A sobrecarga de trabalho, o medo da contaminação e o sentimento de impotência diante da mortalidade foram fatores determinantes.
Já entre jovens e estudantes universitários, a prevalência de sintomas depressivos chegou a 37%, e de ansiedade, 25%, com 7,3% apresentando ideação suicida (Zhou et al., 2020). O isolamento e a perda de perspectivas de futuro parecem ter amplificado a vulnerabilidade emocional dessa faixa etária.
Entre gestantes, outro grupo crítico, 43% relataram ansiedade e 32% depressão, taxas notavelmente elevadas para um período de grande vulnerabilidade biológica e emocional (Zhang et al., 2020).
3. Um efeito duradouro: a onda pós-pandêmica
Embora o pico da pandemia tenha passado, as consequências psicológicas persistem. Um estudo longitudinal com adultos gregos mostrou que a depressão aumentou e a resiliência diminuiu um ano após o início da pandemia, afetando todas as faixas etárias, mas com maior gravidade entre jovens (Efstathiou et al., 2025).
Em nível global, os pesquisadores alertam que ainda podemos estar observando apenas a “ponta do iceberg”. Como argumentam Penninx e colegas, o impacto direto do vírus — por meio de inflamação neuropsiquiátrica — e os efeitos indiretos (sociais e econômicos) podem se manifestar por anos (Penninx et al., 2022).

4. Dados surpreendentes: nem todos sucumbiram — e a resiliência emergiu como fator protetor
Apesar da crise, alguns estudos trazem uma nota de otimismo. Em diversos países, não se observou um aumento consistente nas taxas de suicídio, e algumas populações demonstraram alta capacidade de adaptação. Pesquisas sugerem que o fortalecimento dos laços familiares, a espiritualidade e as práticas de autocuidado — como o exercício físico e a meditação — atuaram como mecanismos de resiliência.
Um estudo baseado em dados de busca no Google mostrou aumento global no interesse por yoga durante a pandemia, correlacionado com os picos de ansiedade e depressão (Jindal et al., 2021). Isso sugere uma tentativa coletiva de lidar com o sofrimento emocional por meio de práticas integrativas.
“A busca por saúde mental virou uma forma de sobrevivência coletiva.”
5. A desigualdade também adoece: o papel dos determinantes sociais
A pandemia escancarou as conexões entre saúde mental e determinantes sociais. A pobreza, o desemprego e a insegurança alimentar foram fatores fortemente associados à depressão e à ansiedade, especialmente em países de baixa e média renda (Nochaiwong et al., 2021).
Hossain et al. (2020) enfatizam que o contexto socioeconômico modula o risco de sofrimento mental tanto quanto a própria exposição ao vírus, configurando o que chamam de “epidemia de desigualdade emocional”.
6. O que aprendemos — e o que ainda precisamos entender
Se há algo que a pandemia nos ensinou, é que a saúde mental deve ser tratada como um componente essencial da saúde pública. A epidemiologia da ansiedade e da depressão no pós-pandemia aponta para a necessidade urgente de:
- Monitoramento das condições mentais em diferentes grupos populacionais.
- Políticas públicas integradas, que combinem intervenções psicossociais, econômicas e educacionais.
- Campanhas de prevenção, voltadas principalmente para jovens, mulheres e profissionais de saúde.
- Abordagens baseadas em resiliência, que valorizem redes de apoio e hábitos saudáveis.
Como observam Pillai et al. (2023), a chave para o enfrentamento futuro pode estar na educação emocional precoce e no uso responsável das redes sociais, que se tornaram tanto fonte de apoio quanto gatilho de sofrimento (Pillai et al., 2023).
Conclusão: o legado invisível da pandemia
A epidemiologia da saúde mental nos revela que o impacto do COVID-19 vai muito além das sequelas físicas. A ansiedade e a depressão tornaram-se marcadores de um mundo em transformação, onde as fragilidades humanas foram expostas, mas também onde novas formas de resistência emergiram.
A pergunta que permanece é: estaremos preparados para cuidar das cicatrizes psicológicas da próxima crise global?
Referências
- Nochaiwong, S., Ruengorn, C., et al. (2021). Global prevalence of mental health issues among the general population during COVID-19: a meta-analysis. Disponível aqui
- Zhu, Y., Zhang, L., et al. (2022). Depression and anxiety during the COVID-19 pandemic. Disponível aqui
- Hossain, M., Tasnim, S., et al. (2020). Epidemiology of mental health problems in COVID-19: a review. Disponível aqui
- Huang, Y., Huang, R., et al. (2023). Mental health status and related factors influencing healthcare workers during COVID-19. Disponível aqui
- Zhou, S. J., Qi, M., et al. (2020). Mental health problems and related factors in Chinese students during COVID-19. Disponível aqui
- Zhang, Y., Yu, Q., et al. (2020). Prevalence of anxiety and depression among pregnant women during COVID-19 pandemic. Disponível aqui
- Efstathiou, V., Papadopoulou, A., et al. (2025). Depression, anxiety, resilience and family functioning after COVID-19 pandemic. Disponível aqui
- Penninx, B., Benros, M., et al. (2022). How COVID-19 shaped mental health: From infection to pandemic effects. Disponível aqui
- Jindal, R., Jindal, A. (2021). Global change in interest toward yoga for mental health during the pandemic. Disponível aqui
- Pillai, V., Patel, V., et al. (2023). Risk factors and strategies for prevention of depression and anxiety post-COVID-19. Disponível aqui






