1. Introdução: A pandemia silenciosa que já começou
Enquanto o mundo ainda contabiliza as lições deixadas pela COVID-19, uma ameaça mais discreta e persistente cresce nos bastidores: a resistência antimicrobiana (RAM).
Estima-se que, atualmente, 1,27 milhão de pessoas morram todos os anos por infecções causadas por bactérias resistentes — um número que pode chegar a 10 milhões até 2050, superando o câncer em mortalidade (Prestinaci et al., 2015).
A RAM é o resultado previsível — e evitável — do uso excessivo e incorreto de antibióticos, tanto na medicina quanto na agropecuária.
Mas seu impacto vai além da infecção individual: trata-se de uma crise epidemiológica global, que ameaça cirurgias, transplantes e tratamentos de câncer, pilares da medicina moderna.
“A resistência antimicrobiana é a próxima grande pandemia — só que já está acontecendo.”
2. O que é resistência antimicrobiana e por que ela cresce?
A resistência antimicrobiana ocorre quando microrganismos — bactérias, vírus, fungos ou parasitas — evoluem mecanismos para sobreviver a medicamentos que antes os eliminavam.
O fenômeno é natural, mas foi acelerado pelo uso inadequado de antimicrobianos em humanos e animais, como o consumo indiscriminado de antibióticos sem prescrição.
Segundo Burnham et al. (2017), os principais fatores que impulsionam a RAM incluem:
- Prescrição excessiva e automedicação.
- Uso de antibióticos em pecuária e agricultura.
- Falta de sistemas de vigilância padronizados.
- Fronteiras frágeis entre saúde humana, animal e ambiental.
A consequência é o surgimento de bactérias multirresistentes (MDR), como Staphylococcus aureus (MRSA), Klebsiella pneumoniae e Mycobacterium tuberculosis resistente (Burnham et al., 2017).

3. O panorama global da resistência antimicrobiana
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu a RAM como uma das 10 maiores ameaças à saúde pública mundial.
Desde 2015, com o lançamento do Global Antimicrobial Resistance Surveillance System (GLASS), países vêm sendo incentivados a monitorar e compartilhar dados sobre resistência.
No entanto, a cobertura global ainda é desigual.
Relatórios da OMS mostram que menos de 50% dos países têm sistemas robustos de vigilância, especialmente na África e na Ásia (Tornimbene et al., 2022).
Na África, por exemplo, estudos revelam altas taxas de resistência a antibióticos de primeira linha, dificultando o tratamento de doenças comuns como pneumonia e infecções urinárias (Kariuki et al., 2018).
Essas desigualdades indicam que a RAM não é apenas um problema microbiológico — é também uma questão de justiça social e econômica.
4. Epidemiologia genômica: rastreando a resistência em tempo real
Uma das maiores revoluções no combate à RAM vem da epidemiologia genômica, que usa sequenciamento de DNA para identificar genes de resistência e rastrear sua disseminação.
Segundo Seelall (2024), genes como blaCTX-M, mecA e blaKPC estão entre os principais responsáveis pela disseminação global da resistência em E. coli, S. aureus e K. pneumoniae (Seelall, 2024).
Essa abordagem permite:
- Mapear rotas de transmissão entre países e hospitais;
- Detectar novas variantes de resistência antes que se espalhem;
- Guiar políticas de controle com base em evidências genéticas.
Um avanço recente é o uso de amostras de esgoto para vigilância genômica, como propuseram Aarestrup & Woolhouse (2020).
Com isso, é possível monitorar a RAM em comunidades inteiras de forma barata e contínua (Aarestrup & Woolhouse, 2020).
“Os esgotos dizem mais sobre a saúde de uma cidade do que seus hospitais.”
5. O impacto econômico e social da resistência antimicrobiana
Além de seu custo humano, a RAM representa uma crise econômica global.
Relatórios do Banco Mundial estimam que, se não for controlada, poderá causar perdas de até US$ 100 trilhões até 2050, devido ao aumento da mortalidade e à queda na produtividade.
Hospitais enfrentam internações mais longas, tratamentos mais caros e taxas mais altas de mortalidade.
Segundo Coque et al. (2023), a RAM ameaça “os fundamentos do sistema de saúde moderno” e exige coordenação internacional entre ciência, economia e política pública (Coque et al., 2023).
A resistência antimicrobiana é, portanto, um problema interdisciplinar — que conecta laboratórios, fazendas, indústrias e governos.

6. A perspectiva “One Health”: unindo humanos, animais e ambiente
A abordagem One Health reconhece que saúde humana, animal e ambiental estão interligadas.
Singh et al. (2021) destacam que antibióticos usados em pecuária e agricultura contribuem para a disseminação de genes de resistência, que podem retornar ao ser humano por meio da água, do solo ou dos alimentos (Singh et al., 2021).
Países que implementaram políticas restritivas, como o banimento de antibióticos promotores de crescimento em animais, observaram quedas significativas na resistência bacteriana.
Essa integração entre áreas é o coração das estratégias globais de contenção.
Mudenda & Chabalenge (2023) reforçam que o combate à RAM requer:
- Programas de uso racional de antibióticos (stewardship);
- Regulação internacional de prescrição e venda;
- Investimento em novas terapias e vacinas;
- Educação pública e profissional (Mudenda & Chabalenge, 2023).
7. Desafios da vigilância e desigualdades globais
Mesmo com avanços como o GLASS, a vigilância da RAM enfrenta obstáculos persistentes.
Hope et al. (2024) mostraram que, na África, a implementação do GLASS ainda é limitada por falta de infraestrutura laboratorial e pessoal treinado (Hope et al., 2024).
Isso significa que as regiões mais vulneráveis são também as menos monitoradas, o que agrava a propagação global.
Um avanço promissor é o uso de inteligência artificial e big data para prever surtos de resistência com base em padrões ambientais e clínicos — uma fronteira emergente da epidemiologia digital.
8. Novos caminhos: genômica, inovação e cooperação
A boa notícia é que a ciência está reagindo.
Sherry & Lee (2025) destacam que a integração de genômica, bioinformática e vigilância epidemiológica pode revolucionar a detecção precoce de resistência e guiar intervenções em tempo real (Sherry & Lee, 2025).
Outras estratégias emergentes incluem:
- Desenvolvimento de novos antimicrobianos e terapias alternativas (como bacteriófagos);
- Vacinas direcionadas a patógenos resistentes;
- Sistemas globais de dados abertos, para compartilhamento rápido de resultados laboratoriais.
O desafio agora é transformar esses avanços tecnológicos em políticas públicas acessíveis e sustentáveis, especialmente em países de baixa renda.
Conclusão: A resistência antimicrobiana é o espelho da humanidade
A resistência antimicrobiana não é apenas um fenômeno biológico — é um reflexo de nossos hábitos, políticas e prioridades.
Ela expõe a fragilidade de um sistema de saúde global fragmentado e dependente de soluções rápidas.
Como afirmou a OMS, “a era pós-antibióticos já começou — e o futuro depende de como responderemos agora”.
A questão é: teremos coragem e cooperação suficientes para conter a próxima pandemia invisível?








