
1. Introdução: A obesidade como a pandemia crônica do século XXI
A obesidade deixou de ser um problema individual para se tornar um dos maiores desafios epidemiológicos da era moderna. De acordo com o Global Burden of Disease e análises recentes, mais de 1 bilhão de pessoas vivem com obesidade em 2025 — um aumento de mais de 200% desde 1980 (Safiri et al., 2024).
O fenômeno não se restringe aos países ricos: cresce mais rapidamente em nações de renda média e baixa, onde a urbanização e o acesso a alimentos ultraprocessados transformaram hábitos alimentares e níveis de atividade física. A obesidade é hoje um marcador da desigualdade social e econômica global.
“A obesidade é o resultado visível de um sistema invisível — o modo como vivemos, comemos e nos movemos.”
2. Tendências globais: o mapa da obesidade em 2025
Estudos mostram que a prevalência global de obesidade quase triplicou desde 1975, com ritmo acelerado nas últimas duas décadas (Inoue et al., 2018).
O Global Burden of Disease Study e a Non-Communicable Disease Risk Factor Collaboration revelam:
- América Latina: taxa média de obesidade acima de 30%, liderada por México e Brasil;
- Oriente Médio e Norte da África: mais de 35% da população obesa, especialmente entre mulheres;
- Ásia e África Subsaariana: aumento rápido, com projeção de duplicar até 2035 (Ford & Mokdad, 2008).
Entre adultos, o índice de massa corporal (IMC) médio global passou de 21,5 kg/m² em 1975 para 24,9 kg/m² em 2025. Já entre crianças e adolescentes, os números cresceram dez vezes em 40 anos (Raj & Kumar, 2010).
3. A transição nutricional e o ambiente obesogênico
A expansão da obesidade acompanha a chamada transição nutricional — a substituição de dietas tradicionais por produtos industrializados ricos em açúcar, gordura e sal. Malik, Willett e Hu (2020) apontam que a liberalização econômica e a globalização alimentar foram determinantes na explosão de obesidade em países emergentes (Malik et al., 2020).
Essa mudança alimentar, somada à redução drástica da atividade física, criou o que os especialistas chamam de “ambiente obesogênico” — um contexto em que ganhar peso é mais fácil do que evitá-lo.
Além dos fatores comportamentais, estudos recentes destacam agentes químicos obesogênicos — disruptores endócrinos presentes em plásticos, pesticidas e cosméticos, capazes de alterar o metabolismo e predispor ao ganho de peso (Ćurić et al., 2022).

4. Epidemiologia da obesidade infantil: a geração sob risco
A obesidade infantil tornou-se uma das emergências de saúde pública mais graves do século XXI, segundo a OMS (2025). Afeta mais de 340 milhões de crianças e adolescentes no mundo, com tendência de aumento especialmente nas zonas urbanas de baixa renda.
Klingelhöfer et al. (2021) mostram que, embora a pesquisa sobre obesidade infantil tenha crescido, as intervenções eficazes ainda são raras e pouco sustentáveis (Klingelhöfer et al., 2021).
Entre os fatores de risco estão:
- Exposição precoce a ultraprocessados;
- Ambientes familiares com pouca atividade física;
- Influência digital e marketing de alimentos infantis;
- Desigualdade no acesso a espaços de lazer e alimentação saudável.
“A obesidade infantil de hoje é a epidemia cardiovascular de amanhã.”
5. Obesidade e envelhecimento: um desafio duplo
O aumento da longevidade traz um novo perfil epidemiológico: a obesidade geriátrica. Malenfant & Batsis (2019) apontam que o excesso de peso entre idosos cresce paralelamente ao da população geral, e tem consequências específicas — como perda de mobilidade, maior risco de quedas e dependência funcional (Malenfant & Batsis, 2019).
O fenômeno representa um duplo fardo epidemiológico: idosos com obesidade têm maior risco de doenças crônicas e incapacidade, mas também maior fragilidade ao perder peso de forma rápida, criando dilemas terapêuticos complexos (Samper-Ternent & Al Snih, 2012).
6. Desigualdades e determinantes sociais da obesidade
A relação entre obesidade e nível socioeconômico varia conforme o estágio de desenvolvimento do país. Nos estágios iniciais da transição, a obesidade é mais prevalente entre os mais ricos; nas sociedades industrializadas, torna-se mais comum entre os mais pobres (Wariri et al., 2020).
Essa inversão reflete o custo relativo de alimentos saudáveis e o acesso desigual a oportunidades de lazer e transporte ativo. A obesidade é, portanto, um marcador de iniquidade em saúde — e qualquer resposta efetiva deve envolver políticas sociais e estruturais.
7. A obesidade feminina e materna: uma tendência alarmante
A obesidade em mulheres em idade fértil e durante a gestação é um fenômeno crescente e preocupante.
Uma metanálise global recente estimou que uma em cada seis gestações ocorre em mulheres com obesidade, e que essa proporção deve aumentar para 23% até 2030 (Kent et al., 2024).
Além dos riscos obstétricos, a obesidade materna tem efeitos transgeracionais — aumentando a probabilidade de obesidade infantil e doenças metabólicas futuras. Trata-se, portanto, de um elo epidemiológico entre gerações.

8. As complicações da obesidade: a síndrome das doenças crônicas
Obesidade não é apenas excesso de peso — é uma condição inflamatória sistêmica associada a doenças metabólicas, cardiovasculares e até alguns tipos de câncer. Kinlen et al. (2018) destacam que o aumento da obesidade precoce e severa já está mudando o perfil clínico de doenças tradicionalmente adultas, como o diabetes tipo 2 em adolescentes (Kinlen et al., 2018).
O impacto econômico também é massivo: estima-se que os custos globais com obesidade alcancem US$ 4 trilhões até 2035, equivalentes a 3% do PIB mundial (Lan & Sulaiman, 2024).
9. Políticas públicas e caminhos possíveis
A prevenção da obesidade requer ações multissetoriais. Segundo Muthoni (2024), políticas eficazes combinam educação alimentar, tributação de bebidas açucaradas, regulamentação da publicidade infantil e redesenho urbano para promover transporte ativo (Muthoni, 2024).
Exemplos promissores incluem:
- O imposto sobre refrigerantes no México, que reduziu o consumo em 7,6% no primeiro ano;
- A rotulagem frontal de alimentos no Chile;
- As políticas de alimentação escolar saudável no Brasil.
Ainda assim, as respostas globais permanecem fragmentadas e lentas — refletindo a força da indústria alimentícia e a complexidade social do problema.
10. Conclusão: a obesidade como espelho da sociedade
A epidemiologia da obesidade revela mais do que números — revela como as sociedades escolhem viver e se alimentar. Trata-se de uma epidemia produzida por sistemas alimentares insustentáveis, cidades pouco saudáveis e políticas públicas que reagem, mas raramente previnem.
A pergunta que fica é: estamos dispostos a repensar o ambiente que produz obesidade antes que ela se torne o novo normal epidemiológico?









