1. Introdução: A nova cara das epidemias no século XXI
Se o século XX foi marcado pelo otimismo de que a ciência venceria as infecções, o século XXI vem desmontando essa ilusão.
De vírus zoonóticos saltando entre espécies a bactérias resistentes a antibióticos, vivemos uma era de recrudescimento microbiano — em que o equilíbrio entre humanos e patógenos se torna cada vez mais frágil.
Segundo Clements & Casani (2016), 60% das doenças emergentes têm origem zoonótica, ou seja, passam de animais para humanos, impulsionadas por desmatamento, urbanização e mudanças climáticas (Clements & Casani, 2016).
Em 2025, as tendências globais mostram que a vigilância epidemiológica se tornou tão essencial quanto a vacina — e que as próximas pandemias já estão sendo gestadas nos pontos cegos da globalização.

2. O que são doenças emergentes e reemergentes?
De acordo com Morse & Hughes (1996), doenças emergentes são aquelas causadas por novos patógenos ou por microrganismos conhecidos que adquirem novas características — como o SARS-CoV-2 em 2019.
Já as reemergentes são infecções conhecidas que voltam a crescer após terem sido controladas, como tuberculose e sarampo (Morse & Hughes, 1996).
O que torna 2025 especial é que ambos os tipos estão avançando simultaneamente, alimentados por fatores globais como:
- Mudanças climáticas que expandem o alcance de vetores;
- Resistência antimicrobiana;
- Mobilidade humana e comércio internacional;
- Falhas nos sistemas de saúde pós-pandemia.
3. Doenças em alta em 2025: o que a vigilância está mostrando
As bases globais de vigilância, como o Global Outbreak Alert and Response Network (GOARN) e o ECDC, apontam que 2025 vem sendo um ano de recrudescimento multivetorial — com novas ondas de vírus e o retorno de velhos inimigos.
1. Dengue e outras arboviroses
Com temperaturas recordes, o Aedes aegypti expandiu-se para regiões antes frias, levando dengue, zika e chikungunya para a Europa e o sul dos EUA.
Segundo Ahmed (2012), o aquecimento global altera o ciclo de vida dos mosquitos e a replicação viral, tornando surtos mais intensos e longos (Ahmed, 2012).
2. Candida auris: o fungo hospitalar global
Identificado em 2009, o Candida auris tornou-se um símbolo da resistência antifúngica.
Em 2025, já está presente em mais de 40 países, afetando UTIs e pacientes imunossuprimidos.
3. Gripe aviária H5N1 e H7N9
Casos em mamíferos silvestres e humanos têm aumentado, levantando alertas sobre potenciais mutações com transmissão sustentada entre humanos, segundo Louten (2016) (Louten, 2016).
4. Tuberculose e sarampo: o retorno das reemergentes
A interrupção de campanhas de vacinação e tratamento durante a pandemia provocou rebotes epidêmicos.
O sarampo voltou a circular em 37 países, e a tuberculose multirresistente cresce em países de renda média (Parhizgari et al., 2017).
5. Monkeypox (Mpox)
Após o surto de 2022, a Mpox não desapareceu — estabilizou-se como endêmica em vários países da África e América Latina, agora com transmissão sexual consolidada.
4. As novas forças por trás da emergência de doenças
A emergência de patógenos é menos aleatória do que parece.
Semenza et al. (2016) demonstraram que surtos recentes estão fortemente associados a cinco fatores estruturais:
- Mobilidade global – viagens internacionais aceleram a disseminação;
- Mudanças ambientais – desmatamento e urbanização expõem humanos a novos reservatórios;
- Globalização alimentar – amplifica doenças zoonóticas;
- Resistência antimicrobiana;
- Conflitos e crises humanitárias (Semenza et al., 2016).
Como sintetiza Snowden (2008), “a modernidade criou o ambiente ideal para o retorno das velhas pragas” (Snowden, 2008).
5. As doenças negligenciadas que voltam com força
Além das conhecidas pandemias, doenças tropicais negligenciadas estão ressurgindo com impacto inesperado.
Mackey et al. (2014) destacam que malária, leishmaniose e esquistossomose estão expandindo para áreas urbanas e subtropicais, onde antes eram raras (Mackey et al., 2014).
Essas doenças, embora antigas, agora carregam o peso das desigualdades globais, com acesso desigual a diagnóstico, tratamento e saneamento.
“As doenças negligenciadas são o espelho das injustiças em saúde global.”
6. A revolução na vigilância: da genômica ao alerta em tempo real
Segundo Castillo-Salgado (2010), a vigilância global nunca foi tão interconectada.
Graças a sistemas baseados em dados genômicos e inteligência artificial, surtos podem ser detectados em questão de horas (Castillo-Salgado, 2010).
Hoje, plataformas como ProMED, Nextstrain e HealthMap permitem rastrear mutações e surtos em tempo real — um salto em relação à epidemiologia clássica.
Contudo, ainda há lacunas estruturais: metade dos países não possui infraestrutura laboratorial para identificar patógenos emergentes (Almossawi et al., 2019).
7. Vacinas, antivirais e o futuro da resposta global
As vacinas continuam sendo nossa melhor defesa, mas 2025 mostra que elas precisam acompanhar a velocidade da evolução viral.
Andrei (2021) destaca que a integração entre vacinas de RNA, antivirais e plataformas de vigilância molecular está definindo uma nova era na contenção de doenças (Andrei, 2021).
A resposta rápida à COVID-19 inspirou a criação de bancos de dados genéticos integrados — um “Waze da virologia” global, que já acelera o desenvolvimento de vacinas contra Marburg, Nipah e H5N1.
Mas, como alerta Chrysanthus (2022), questões geopolíticas e o debate sobre pesquisas de “ganho de função” ainda dividem a comunidade científica (Chrysanthus, 2022).

8. O futuro das epidemias: prevenção integrada e “One Health”
A abordagem One Health — que integra saúde humana, animal e ambiental — é hoje o alicerce das estratégias de prevenção.
Ela reconhece que não existem fronteiras biológicas entre espécies ou países.
Como afirmam Almossawi et al. (2019), o combate eficaz às doenças emergentes depende de cooperação internacional, investimento contínuo e vigilância adaptativa.
Sem isso, a história seguirá se repetindo — apenas com novos nomes de vírus.
Conclusão: Estamos preparados para o próximo salto zoonótico?
De Ebola a COVID-19, de dengue a Candida auris, as doenças emergentes revelam uma verdade incômoda:
a próxima pandemia não é uma questão de “se”, mas de “quando” — e de “onde” ela será detectada primeiro.”
O recente desafio da epidemiologia não é apenas prever o próximo surto, mas garantir que os dados se transformem em ação antes que o vírus se transforme em desastre.









