A epidemiologia crítica é uma abordagem transformadora da saúde que vai além da análise de fatores de risco individuais para investigar as raízes profundas dos problemas de saúde. Nascida no contexto da medicina social latino-americana e tendo em Jaime Breilh um de seus principais expoentes, esta ciência busca desvendar como a estrutura social, econômica e política determina os padrões de saúde e doença nas populações.
Neste texto, você encontrará a definição essencial, seus fundamentos, as diferenças para a epidemiologia tradicional e suas aplicações práticas para entender o adoecimento coletivo.
Vivemos, como argumenta Breilh, em uma “civilização malsana”, marcada pela aceleração do neoliberalismo, crises ambientais e uma profunda iniquidade social. Este cenário exige uma “ciência ética e valiente”, capaz de ir além de meros paliativos para questionar as estruturas que geram o sofrimento.
A epidemiologia crítica surge como uma ferramenta indispensável para repensar a prevenção e a promoção da vida, oferecendo um caminho para uma ciência engajada com a transformação social e a busca pelo “bem viver”.
O que é Epidemiologia Crítica? Uma Definição Essencial
A epidemiologia crítica é uma corrente da saúde coletiva latino-americana que estuda a determinação social da saúde, em oposição à epidemiologia tradicional que foca em fatores de risco. Ela analisa como processos históricos, sociais, econômicos e culturais, como classe, gênero e etnia, geram padrões de saúde e doença nas populações, buscando compreender as causas estruturais das iniquidades.
Para aprofundar, a epidemiologia crítica utiliza a metáfora do “pico do iceberg” para explicar seu objeto de estudo. Enquanto a epidemiologia tradicional se concentra nos fenômenos do pico do iceberg, os eventos visíveis como doenças e fatores de risco, a abordagem crítica busca entender as estruturas submersas que geram esses eventos, ou seja, os processos sociais, políticos e econômicos que sustentam a realidade observável.
Seu objetivo, portanto, não é apenas descrever a distribuição das doenças, mas ser uma “ferramenta válida para repensar a prevenção e a promoção da vida”, fornecendo subsídios para uma ação transformadora e emancipatória.

Fundamentos: A Ruptura com a “Burbuja Cartesiana”
A base da epidemiologia crítica é a ruptura com o paradigma positivista e o reducionismo cartesiano que dominam as ciências da vida.
Jaime Breilh descreve essa visão hegemônica como a “burbuja cartesiana”: uma forma de pensar que fragmenta a realidade em partes isoladas (fatores de risco), reifica esses fatores (trata-os como “coisas” estáticas) e os analisa por meio de uma causalidade linear (uni ou multicausal), ignorando a complexidade, as inter-relações e o movimento histórico da realidade.
Em contraste, a epidemiologia crítica propõe o paradigma da determinação social da saúde. Antes de defini-lo, é crucial diferenciá-lo do conceito mais difundido de “determinantes sociais”. Enquanto os “determinantes sociais” (usado pela OMS) geralmente se referem a uma lista de fatores (escolaridade, renda, moradia) que influenciam a saúde, analisados de forma linear, a “determinação social” refere-se ao processo histórico, complexo e dialético que gera esses determinantes.
O foco da determinação está nas relações de poder (classe, gênero, etnia) que estruturam a sociedade e produzem as iniquidades, oferecendo uma explicação mais profunda e estrutural.
O conceito de determinação social descreve o movimento complexo e multidimensional através do qual a saúde coletiva adquire suas propriedades. Segundo Breilh, esse movimento se organiza em três dimensões concatenadas:
- Geral (G): Refere-se à lógica macroestrutural da sociedade, como o modo de acumulação de capital (neoliberalismo), a política de Estado e a cultura hegemônica que sustentam o sistema.
- Particular (P): Analisa a forma como os grupos sociais se reproduzem, incluindo a dinâmica das classes sociais e as relações de dominação de gênero e etno-culturais (racismo, sexismo).
- Individual (I): Corresponde à esfera dos indivíduos e famílias, com seus fenótipos, genótipos, estilos de vida e cotidiano, que são a expressão final dos processos das dimensões geral e particular.
Para superar a dicotomia entre o social e o biológico, Breilh introduz a categoria de subsunção-autonomia-relativa. Este conceito descreve a conexão inerente entre processos de diferentes domínios de complexidade. Nele, os sistemas mais complexos (como a organização social) tendem a impor suas condições aos menos complexos (como os processos biológicos), enquanto estes últimos mantêm uma autonomia relativa.
É o mecanismo teórico que permite entender como a vida social se “encarna” nos corpos, sem cair em um determinismo social absoluto nem em um reducionismo biológico.
As Contribuições de Jaime Breilh e a Metodologia Meta-Crítica
Jaime Breilh, um dos principais teóricos da epidemiologia crítica, detalha em sua obra Epidemiología crítica y la salud de los pueblos uma proposta metodológica robusta para aplicar este paradigma. Sua principal contribuição é a metodologia meta-crítica.
Esta metodologia surge como a resposta prática aos problemas da “burbuja cartesiana”. Foi desenhada para superar a fragmentação da realidade, a causalidade linear e a separação entre pesquisa quantitativa e qualitativa, inerentes ao paradigma positivista.
Em vez de apenas justapor dados, ela propõe uma integração dialética entre evidências estatísticas (regularidades quantitativas) e narrativas de diferentes saberes (evidências qualitativas). Este pilar da interculturalidade é central, pois busca romper com o “epistemicídio” da ciência hegemônica.
Nesse sentido, Breilh afirma que sua proposta é complementar à ecologia de saberes de Boaventura de Sousa Santos, valorizando o conhecimento científico crítico, o saber popular e o conhecimento indígena para construir uma compreensão profunda e multidimensional da saúde.
Para avaliar o grau de saúde ou “bem viver” de um território, Breilh propõe os referenciais das 4 “S” da vida:
- Sustentabilidade: A harmonia e o equilíbrio dos ecossistemas e da relação metabólica sociedade-natureza.
- Soberania: A autonomia dos povos para decidir sobre seus territórios, alimentação, cultura e saúde.
- Solidariedade: A coesão social, a justiça, a equidade e as relações de apoio mútuo.
- Segurança: A proteção e segurança integral da vida em todas as suas formas (biológica, social, cultural).
Esses conceitos são organizados na Matriz de Processos Críticos, uma ferramenta analítica que cruza as dimensões da determinação social (Geral, Particular, Individual) com as 4 “S” da vida.
A interseção desses eixos cria 12 nodos analíticos, cada um representando um domínio específico para uma análise integrada e aprofundada da determinação social da saúde em um determinado espaço social.
Epidemiologia Crítica vs. Epidemiologia Tradicional
A tabela abaixo resume as principais diferenças entre os dois paradigmas, evidenciando a ruptura proposta pela epidemiologia crítica.
| Característica | Epidemiologia Tradicional (Linear/Cartesiana) | Epidemiologia Crítica (Dialética) |
| Objeto de Estudo | Fatores de risco e sua associação causal com doenças (fenômenos do “pico do iceberg”). | A determinação social da saúde (processos históricos, complexos e multidimensionais). |
| Método | Empírico-analítico, reducionista, focado na indução estatística e na causalidade linear. | Dialético, transdisciplinar e intercultural (metodologia meta-crítica). |
| Conceito de Saúde | Ausência de doença ou bem-estar individual (físico, mental, social). | Processo complexo, coletivo e multidimensional, produto da reprodução social. |
| Visão da Realidade | Fragmentada, estática, baseada em “partes” que compõem o todo. | Complexa, em movimento, onde os processos se relacionam e se transformam. |
| Objetivo da Práxis | Controle de doenças e gestão de riscos (saúde pública funcionalista). | Ação transformadora e emancipatória para promover o bem viver (saúde coletiva). |

Categorias Analíticas Centrais
Para a epidemiologia crítica, a saúde não pode ser entendida sem analisar as relações de poder que estruturam a sociedade. Por isso, ela se baseia em categorias analíticas fundamentais que revelam as dimensões da determinação social:
- Classe Social: Analisa como a posição na estrutura produtiva e de consumo determina os modos de viver, trabalhar, adoecer e morrer.
- Gênero e Relações Etnoculturais: Examina como as relações de dominação de gênero (patriarcado) e o racismo estrutural geram iniquidades profundas na saúde.
- Território: Entende o espaço não como um local geográfico neutro, mas como um espaço social onde a vida se reproduz, gerando paisagens epidemiológicas específicas.
- Trabalho: Reconhece a centralidade dos processos de trabalho na exposição a riscos, na exploração e na configuração geral da vida.
- Ambiente: Estuda a relação metabólica entre sociedade e natureza, criticando os modelos predatórios que geram crises ecológicas e sanitárias.
- Colonialidade: Critica o pensamento científico hegemônico (epistemicídio) que invalida outros saberes e propõe uma “ecologia de saberes” que valoriza a interculturalidade.
Aplicações Práticas e Desafios Atuais
A epidemiologia crítica oferece ferramentas poderosas para analisar problemas complexos de saúde. Por exemplo, em vez de reduzir a pandemia de obesidade a uma questão de comportamento individual (dieta e exercício), ela analisa a determinação geral do problema: a expansão global da agroindústria de produtos obesogênicos, o lobby corporativo e a imposição de uma “dieta neoliberal”.
Outra aplicação é a análise dos impactos do “neoextrativismo” (agronegócio com uso massivo de agrotóxicos, mineração predatória) na saúde das comunidades rurais e indígenas e na degradação dos ecossistemas. Essa abordagem permite conectar o adoecimento local com modelos de desenvolvimento globais.
Apesar de sua relevância, a epidemiologia crítica enfrenta desafios significativos:
- A hegemonia do paradigma biomédico e funcionalista nas instituições de saúde e na academia.
- A pressão de interesses corporativos que buscam ocultar as causas estruturais dos problemas de saúde.
- A “ignorância epidemiológica estratégica planificada”, que consiste em produzir um excesso de informações fragmentadas (“infodemia”) que impede a compreensão profunda dos fenômenos.
- A necessidade de uma ciência que não seja “tímida” diante do poder e que assuma seu compromisso ético com a defesa da vida.
Perguntas Frequentes (FAQ) sobre Epidemiologia Crítica
A epidemiologia crítica nega a importância da biologia e da genética?
Não. Ela não nega a dimensão biológica, mas a entende como subsumida e moldada pelos processos sociais, através do mecanismo de subsunção-autonomia-relativa. O social e o biológico formam uma unidade dialética. A forma como os processos sociais se “encarnam” (embodiment) nos corpos individuais e coletivos é um dos focos de análise, superando a dicotomia entre os dois campos.
Essa abordagem se aplica fora da América Latina?
Sim. Embora tenha nascido das lutas e realidades latino-americanas, seus fundamentos teóricos e metodológicos são universais. Analisar a determinação social da saúde é relevante em qualquer sociedade marcada por relações de poder e iniquidades, seja no Sul ou no Norte Global.
Como a epidemiologia crítica estuda um problema como a COVID-19?
Ela iria além da análise do vírus e dos fatores de risco individuais. Investigaria como a estrutura de classes, o racismo, as condições de trabalho precárias e a fragilização dos sistemas públicos de saúde (processos gerais e particulares) determinaram a distribuição desigual da doença e da morte, mostrando por que certas populações foram desproporcionalmente afetadas.
É possível aplicar a epidemiologia crítica na gestão dos serviços de saúde?
Sim. Ela pode subsidiar o planejamento em saúde ao identificar os processos críticos que geram os problemas em um território, permitindo ir além da atenção curativa para desenvolver ações de promoção da saúde e prevenção que atuem nas causas estruturais, em conjunto com a comunidade.
Conclusão: Por uma Ciência Profunda e Emancipatória
Este texto demonstrou que a epidemiologia crítica é muito mais que um conjunto de métodos; é um paradigma científico que representa uma ruptura fundamental com o modelo tradicional.
Ao deslocar o foco dos fatores de risco para a determinação social da saúde, ela oferece uma visão mais profunda, complexa e politizada dos processos de saúde e doença, revelando as raízes das iniquidades que marcam nossas sociedades.
Enfrentar os desafios de uma “civilização malsana” com suas crises ecológicas, econômicas e sociais exige uma ciência engajada, ética e corajosa. A epidemiologia crítica é uma ferramenta essencial para essa tarefa.
Como afirmou Rudolf Virchow, um dos pioneiros da medicina social, a saúde dos povos requer “democracia total e ilimitada”. A epidemiologia crítica atualiza esse chamado, nos convidando a construir um conhecimento que sirva não para administrar a doença, mas para emancipar e promover a vida.
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Para Saber Mais
Assista a aula aberta do Professor Jaime Breilh – Universidade Andina Simón Bolivar para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Referências
- Breilh J. Epidemiología crítica y la salud de los pueblos: Ciencia ética y valiente en una civilización malsana. Krieger N, editora. 1ª ed. em espanhol. Quito: Universidad Andina Simón Bolívar, Sede Ecuador; 2023.
- Krieger N. Prólogo a la edición en inglés. Em: Breilh J. Epidemiología crítica y la salud de los pueblos. Quito: Universidad Andina Simón Bolívar, Sede Ecuador; 2023. p. 17-20.






