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Epidemiologia das Arboviroses: 7 fatos que revelam a nova era das epidemias tropicais

Sumário

  1. Introdução
  2. O que são arboviroses
  3. O papel da epidemiologia nas doenças transmitidas por vetores
  4. A transição epidemiológica das arboviroses
  5. Fato 1: A urbanização e o aumento da vulnerabilidade
  6. Fato 2: O vetor urbano e sua expansão global
  7. Fato 3: Mudanças climáticas e sazonalidade das epidemias
  8. Fato 4: Coinfecções e desafios diagnósticos
  9. Fato 5: O impacto socioeconômico das arboviroses
  10. Fato 6: Estratégias de vigilância e controle vetorial
  11. Fato 7: O futuro da epidemiologia das arboviroses
  12. Conclusão: O que vem depois?

Introdução: A era das arboviroses e o olhar epidemiológico

A epidemiologia das arboviroses se tornou um dos campos mais dinâmicos da saúde coletiva contemporânea. Com o avanço da globalização, mudanças climáticas e urbanização desordenada, vírus antes restritos a ecossistemas silvestres encontram hoje um terreno fértil nas cidades tropicais e subtropicais.

Dengue, zika, chikungunya e febre amarela urbana são apenas alguns exemplos de doenças que ilustram essa nova ecologia das epidemias tropicais — um fenômeno que desafia fronteiras geográficas, sociais e científicas.

Mais do que números, entender as arboviroses significa compreender a interação entre vírus, vetores e ambiente humano — um verdadeiro tripé da vulnerabilidade epidemiológica moderna.


O que são arboviroses?

O termo arbovirose deriva de arthropod-borne virus, ou seja, vírus transmitidos por artrópodes, principalmente mosquitos do gênero Aedes. Esses vírus incluem dengue (DENV), zika (ZIKV), chikungunya (CHIKV) e febre amarela (YFV) — todos responsáveis por milhões de infecções anuais no mundo.

Do ponto de vista epidemiológico, as arboviroses apresentam ciclos complexos que envolvem reservatórios silvestres, vetores intermediários e transmissão urbana, criando cenários de emergência e reemergência contínua.

Em 2024, o Brasil notificou mais de 5 milhões de casos prováveis de dengue — o maior número da série histórica, segundo o Ministério da Saúde.


O papel da epidemiologia nas doenças transmitidas por vetores

A epidemiologia das arboviroses vai além da contagem de casos. Ela busca padrões, determinantes e tendências que explicam por que, onde e quando as epidemias ocorrem.

As ferramentas incluem:

  • Séries temporais para detectar sazonalidade e tendências.
  • Modelagem espacial para identificar áreas de risco.
  • Vigilância genômica para monitorar a evolução viral.
  • Análise de fatores sociais e ambientais que sustentam a transmissão.

Com isso, a epidemiologia atua como bússola científica na formulação de políticas públicas e estratégias de controle vetorial.

Fonte: Painel de Monitoramento das Arboviroses, Ministério da Saúde. Acesso em: 15/11/2025.

A transição epidemiológica das arboviroses

Nas últimas décadas, observamos uma clara transição epidemiológica: das arboviroses rurais para epidemias urbanas explosivas.

O vetor Aedes aegypti, adaptado a ambientes domésticos, transformou-se em protagonista das grandes crises sanitárias da América Latina. Essa transição não é apenas biológica — é também social e política, refletindo desigualdades estruturais e falhas em saneamento, gestão de resíduos e habitação.


Fato 1: A urbanização e o aumento da vulnerabilidade

A rápida expansão urbana sem infraestrutura adequada cria o ambiente perfeito para os vetores. Caixas d’água destampadas, lixo acumulado e falta de saneamento tornam-se criadouros constantes.

Estudos indicam que áreas periféricas com menor acesso a serviços públicos apresentam incidência até 3 vezes maior de dengue e zika (Teixeira et al., 2023).

A urbanização, portanto, não é apenas um fenômeno demográfico — é um determinante epidemiológico.


Fato 2: O vetor urbano e sua expansão global

O Aedes aegypti hoje ocupa mais de 130 países, incluindo regiões anteriormente livres de arboviroses, como partes do sul da Europa e dos Estados Unidos.

Modelos climáticos apontam que, até 2050, mais 1 bilhão de pessoas poderão estar expostas ao risco de infecção por dengue (Ryan et al., 2021).

Essa expansão não é apenas biológica: é o resultado da mobilidade humana e comércio internacional, que transportam ovos e larvas em contêineres e pneus usados.


Fato 3: Mudanças climáticas e sazonalidade das epidemias

As mudanças climáticas alteram a dinâmica das arboviroses ao modificar temperatura, umidade e padrões de chuva — fatores que impactam diretamente o ciclo de vida do vetor.

Temperaturas mais altas aceleram o desenvolvimento larval e reduzem o período de incubação viral no mosquito, aumentando a transmissibilidade.

Segundo Messina et al. (2024), a dengue se tornará endêmica em áreas atualmente temperadas, exigindo vigilância global e regional coordenada.


Fato 4: Coinfecções e desafios diagnósticos

A co-circulação de vírus como dengue, zika e chikungunya gera co-infecções simultâneas, dificultando o diagnóstico clínico e laboratorial.

Os sintomas sobrepostos (febre, exantema, artralgia) confundem o manejo clínico e a notificação epidemiológica.

A subnotificação pode chegar a 60% dos casos leves, comprometendo a precisão dos indicadores epidemiológicos (WHO, 2022).

A vigilância laboratorial integrada e o uso de testes moleculares multiplex são estratégias essenciais para reduzir incertezas.


Fato 5: O impacto socioeconômico das arboviroses

As arboviroses geram custos diretos (internações, medicamentos) e indiretos (perda de produtividade, sobrecarga dos serviços).

Estima-se que a dengue cause perdas anuais de até US$ 9 bilhões globalmente (Shepard et al., 2021).

Além disso, a zika trouxe um legado devastador com a síndrome congênita associada ao ZIKV, expondo falhas históricas na vigilância reprodutiva e no cuidado materno-infantil.


Fato 6: Estratégias de vigilância e controle vetorial

A epidemiologia das arboviroses depende fortemente da qualidade da vigilância.

Atualmente, as estratégias incluem:

  • Monitoramento de ovos e larvas via ovitrampas.
  • Uso de armadilhas inteligentes com georreferenciamento.
  • Controle biológico com Wolbachia e peixes larvófagos.
  • Educação comunitária como ferramenta sustentável.

O controle químico, embora eficaz em curto prazo, perde força com o aumento da resistência aos inseticidas — um fenômeno já documentado em diversas capitais brasileiras.


Fato 7: O futuro da epidemiologia das arboviroses

O futuro aponta para uma epidemiologia preditiva e integrada, capaz de antecipar surtos por meio de modelos de inteligência artificial, dados climáticos em tempo real e sequenciamento genômico populacional.

Ferramentas como o InfoDengue, desenvolvido pela Fiocruz e FGV, já permitem combinar dados meteorológicos e espaciais para detecção precoce de surtos.

O desafio será integrar ciência, tecnologia e políticas públicas de forma equitativa, garantindo que os avanços não fiquem restritos às grandes capitais.


Conclusão: O que vem depois das epidemias tropicais?

A epidemiologia das arboviroses nos ensina que as epidemias não são apenas biológicas — são produtos de sistemas sociais, ambientais e políticos interligados.

Enquanto novos vírus continuam a emergir, o verdadeiro desafio é aprender com os ciclos passados e transformar vigilância em ação.

A pergunta que fica é:

Estamos preparados para a próxima geração de arboviroses — ou continuaremos a reagir, em vez de prever?


Referências

  1. Ministério da Saúde (Brasil). Monitoramento dos casos de arboviroses no Brasil, 2024. Boletim Epidemiológico [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2024 [citado 2025 nov 15]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  2. Teixeira MG, Costa MCN, Barreto ML, Gomes R, Rodrigues LC. Urbanização, desigualdades e vulnerabilidade às arboviroses no Brasil. Acta Tropica. 2023;247:106784.
    Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.actatropica.2023.106784
  3. Ryan SJ, Carlson CJ, Mordecai EA, Johnson LR. Global expansion and redistribution of Aedes-borne virus transmission risk with climate change. Nature Communications. 2021;12(1):2169.
    Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41467-021-21699-4
  4. Messina JP, Brady OJ, Golding N, Kraemer MUG, Wint GRW, Ray SE, et al. Global spread and burden of dengue: a systematic analysis. The Lancet. 2024;403(10421):507–18.
    Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(24)00712-0/fulltext
  5. World Health Organization (WHO). Dengue and severe dengue [Internet]. Geneva: WHO; 2022 [citado 2025 nov 15]. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/dengue-and-severe-dengue
  6. Shepard DS, Undurraga EA, Halasa YA, Stanaway JD. The global economic burden of dengue: a systematic analysis. The Lancet Infectious Diseases. 2021;21(1):e1–e10.
    Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33967842/
  7. C. Codeco, F. Coelho, O. Cruz, S. Oliveira, T. Castro, L. Bastos, Infodengue:
    A nowcasting system for the surveillance of arboviruses in Brazil, Revue d’Épidémiologie et de Santé Publique, Vol 66, Suppl 5, 2018, Page S386,​https://doi.org/10.1016/j.respe.2018.05.408.

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