Home / Epidemiologia / Quando o Clima Adoece: Os Impactos dos Desastres Climáticos na Saúde das Populações

Quando o Clima Adoece: Os Impactos dos Desastres Climáticos na Saúde das Populações


Introdução: O Clima Está Mudando — e a Saúde Também

Os desastres climáticos deixaram de ser eventos raros e passaram a integrar o cotidiano das populações em todas as regiões do planeta. Ondas de calor, enchentes, secas, tempestades e incêndios florestais estão se intensificando e tornando-se cada vez mais letais. Mas o que a epidemiologia tem a ver com isso? Tudo.

Nos últimos 20 anos, mais de 95% das pessoas afetadas por desastres foram vítimas de eventos climáticos extremos (Keim, 2020). E os efeitos não se limitam à mortalidade imediata. Eles atravessam a saúde mental, a segurança alimentar, o risco de doenças infecciosas e o funcionamento dos sistemas de saúde.


O aumento global dos desastres e o novo mapa de risco

Entre 2000 e 2021, o número de desastres relacionados ao clima cresceu de forma alarmante, com mais de 7.000 eventos registrados em todo o mundo (Fernández García & Gan, 2024). As chamadas hotspots — regiões críticas de impacto — se concentram em países de baixa e média renda da Ásia, África e América Latina (Donatti et al., 2024).

O dado surpreendente é que, embora as nações desenvolvidas apresentem menor frequência de desastres, as perdas econômicas por evento são até 30 vezes maiores, refletindo a complexidade das infraestruturas afetadas.

“Os desastres climáticos deixaram de ser exceção e tornaram-se parte do cenário epidemiológico global.”

Epidemiologia dos desastres: quando o clima vira variável de saúde

A epidemiologia dos desastres é uma área em rápida expansão. Ela busca entender como o ambiente molda os padrões de morbimortalidade e como os eventos climáticos extremos interagem com vulnerabilidades pré-existentes.

De acordo com Ebi et al. (2021), as ondas de calor estão entre os eventos com maior impacto sobre a mortalidade, especialmente em áreas urbanas densas e em populações idosas.

Por outro lado, os eventos hidrometeorológicos (como enchentes e tempestades) estão associados a surtos de doenças transmitidas pela água, como cólera e leptospirose, além de agravar doenças crônicas devido à interrupção de tratamentos.


As doenças invisíveis após a tempestade

O impacto dos desastres não termina quando as águas baixam. Estudos indicam que problemas respiratórios, gastrointestinais e mentais são prevalentes nas semanas e meses após o evento (Mohammadi et al., 2023).

Entre populações deslocadas, a prevalência de transtornos mentais pós-traumáticos ultrapassa 30%, revelando uma crise silenciosa. A insegurança alimentar e o colapso das redes de atenção básica agravam o quadro.

“A epidemiologia precisa enxergar os desastres como síndromes complexas, não apenas como eventos isolados.”


Deslocamentos forçados e vulnerabilidade social

A Organização Internacional para as Migrações estima que mais de 20 milhões de pessoas são deslocadas anualmente por desastres ambientais. Essa mobilidade forçada tem consequências diretas sobre a saúde pública: aumento do risco de epidemias, desnutrição, violência e desassistência.

Segundo McMichael et al. (2010), os deslocamentos climáticos são também uma crise de saúde mental coletiva, sobretudo entre mulheres e crianças.

Esses dados reforçam que a vulnerabilidade social é o elo entre o evento climático e o desfecho em saúde, transformando desigualdade em fator de risco.

Sistemas de saúde sob pressão: o teste de resiliência climática

Os desastres climáticos expõem as fragilidades dos sistemas de saúde. Hospitais são danificados, estoques de medicamentos se perdem e os profissionais enfrentam exaustão física e emocional.

Gan et al. (2021) identificaram que países como Indonésia, China e Vietnã vêm implementando medidas de adaptação hospitalar e protocolos de vigilância pós-desastre, mas de forma desigual e ainda incipiente.

“O clima extremo é um estresse de sistema — e o sistema de saúde precisa aprender a adaptar-se tão rapidamente quanto o planeta muda.”


Efeitos indiretos: alimentação, vetores e doenças negligenciadas

As alterações climáticas afetam a distribuição de vetores de doenças como dengue, malária e zika. A expansão de áreas tropicais e a mudança na sazonalidade favorecem a reintrodução de agentes patogênicos em regiões antes livres dessas doenças.

Além disso, a insegurança alimentar aumenta a vulnerabilidade imunológica de populações rurais e periféricas, especialmente em contextos de seca prolongada. A epidemiologia nutricional torna-se, assim, uma aliada essencial no monitoramento desses efeitos indiretos.


O que dizem os números: uma crise desigual

Segundo o relatório global de Keim (2020), entre 1969 e 2018:

  • 95% dos afetados por desastres estavam ligados a fenômenos climáticos;
  • 75% das mortes ocorreram em países de baixa renda;
  • O risco de morte em ondas de calor é até 20 vezes maior entre idosos e pessoas com doenças cardiovasculares;
  • Mulheres e crianças representam os grupos mais vulneráveis nas fases de reconstrução pós-desastre.

Esses dados revelam não apenas uma crise ambiental, mas graves iniquidades em saúde.


O papel da vigilância epidemiológica

A integração entre modelos climáticos e sistemas de vigilância em saúde é um dos grandes desafios do século XXI. Anderson et al. (2019) defendem o uso de modelos epidemiológicos acoplados a previsões meteorológicas para antecipar surtos e prevenir colapsos hospitalares.

Essa abordagem, chamada de “epidemiologia climática preditiva”, combina dados de temperatura, umidade e precipitação com indicadores de saúde pública — um campo promissor para a prática da epidemiologia aplicada.


Conclusão: o clima como determinante social da saúde

Os desastres climáticos são o novo “grande espelho” da epidemiologia contemporânea. Eles revelam as vulnerabilidades estruturais da sociedade, o peso da desigualdade e a necessidade de respostas rápidas e integradas.

Mais do que mapear riscos, a epidemiologia do clima nos convida a repensar o que significa prevenir. O desafio agora é transformar conhecimento em ação — e construir sistemas de saúde que resistam às tempestades do futuro.

Será que estaremos preparados, como sociedade e como campo científico, para tratar o clima como paciente?


📚 Referências

  1. Fernández García A, Gan RK. Global trend and epidemiological profiles of climate‐related disasters from 2000 to 2021. Trop Med Int Health. 2024. Disponível aqui
  2. Donatti CI, Nicholas K, Fedele G, Delforge D. Global hotspots of climate-related disasters. Sci Total Environ. 2024. Disponível aqui
  3. Mohammadi M, Jafari H, Etemadi M. Health problems of increasing man-made and climate-related disasters on forcibly displaced populations: a scoping review. Disaster Med Public Health Prep. 2023. Disponível aqui
  4. Ebi KL, Vanos J, Baldwin JW, Bell JE. Extreme weather and climate change: population health and health system implications. Annu Rev Public Health. 2021. Disponível aqui
  5. Gan CCR, Oktari RS, Nguyen HX, Yuan L, Yu X. A scoping review of climate-related disasters in China, Indonesia and Vietnam: disasters, health impacts, vulnerable populations and adaptation measures. Sci Total Environ. 2021.
  6. Keim ME. The epidemiology of extreme weather event disasters (1969–2018). Prehosp Disaster Med. 2020.
  7. Anderson GB, Barnes EA, Bell ML. The future of climate epidemiology: opportunities for advancing health research in the context of climate change. Am J Epidemiol. 2019.
  8. McMichael A, McMichael C, Berry H. Climate-related displacement: health risks and responses. 2010.

Marcado:adaptaçãoaquecimento globaldesastres naturaisdeslocamento populacionaldoenças infecciosasepidemiologiamortalidademudanças climáticaspolíticas públicasresiliência climáticaSaúde Coletivasaúde globalsaúde mentalsistemas de saúdevulnerabilidade social

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *