Imagine o mundo de 1950. Naquela época, a mulher média tinha cerca de 5 filhos. Essa era a norma em praticamente todos os cantos do planeta – do Reino Unido à China. Hoje, essa taxa global caiu pela metade, chegando a menos de 2,5 filhos por mulher. Em muitos países, a taxa está abaixo de 2.
Este é um dos desenvolvimentos sociais mais rápidos e profundos da história humana, um fenômeno que está reequilibrando a demografia global. Mas o que, exatamente, fez a humanidade mudar de ideia sobre o tamanho da família em apenas algumas gerações? A análise de tendências de longo prazo do grupo Our World In Data mostra que a resposta está na interconexão de investimentos sociais: desde a saúde mais básica até o empoderamento feminino e, surpreendentemente, a cultura pop.
Aqui estão as correlações mais fortes e os desenvolvimentos mais interessantes que explicam por que as taxas de fertilidade estão despencando.
1. Sobrevivência Infantil: O Fim do “Estoque” de Crianças
A correlação mais fundamental e contraintuitiva com a queda da fertilidade é o investimento em saúde que garante que os bebês sobrevivam. Historicamente, em um ambiente de alta mortalidade infantil, as famílias praticavam o que os demógrafos chamam de “estoque” (hoarding): ter mais filhos do que o desejado para garantir que um número suficiente sobrevivesse até a idade adulta.

O desenvolvimento notável aqui é o atraso:
- A Saúde Vem Primeiro: A transição demográfica global é marcada pela queda nas taxas de mortalidade, seguida pela queda nas taxas de natalidade. A lógica é simples: se menos crianças morrem (melhor saúde), os pais não precisam mais compensar o risco com mais nascimentos.
- O Datapoint Surpreendente: Países com altas taxas de mortalidade infantil tendem a ter taxas de fertilidade muito mais altas. Contudo, a fertilidade não cai imediatamente quando a mortalidade infantil diminui. Existe um “atraso” de alguns anos enquanto os pais percebem, retrospectivamente, que o risco de morte diminuiu e adaptam seu comportamento reprodutivo.
- O Impacto Global: Esta tendência é observada com grande regularidade em todos os países do mundo, independentemente de sua cultura ou religião. O investimento na sobrevivência infantil, embora pareça aumentar a população a curto prazo, é o principal catalisador para a estabilização populacional a longo prazo, movendo os países do canto superior direito do gráfico (alta mortalidade, alta fertilidade) para o inferior esquerdo (baixa mortalidade, baixa fertilidade).
2. Educação Feminina: O Fator Causal Mais Forte

O empoderamento das mulheres, impulsionado pela melhoria no acesso à educação e à participação no mercado de trabalho, é outro fator relevante. A educação muda a equação econômica e social da maternidade.
A correlação entre o nível de escolaridade da mulher e o número de filhos é incrivelmente forte:
- A Regra dos Oito Anos: Nos países onde as mulheres têm, em média, mais de oito anos de educação, a taxa de fertilidade geralmente fica abaixo de quatro, e muitas vezes, abaixo de dois filhos por mulher. A expansão da educação não apenas empodera as mulheres com maior status social, mas também aumenta o custo de oportunidade de ter filhos e fortalece o desejo por famílias menores.
- Evidência Causal: Estudos em nível micro que analisaram mudanças políticas, como subsídios educacionais no Quênia ou programas de construção de escolas na Indonésia, mostraram que, à medida que as mulheres recebiam melhor educação, elas tinham um número menor de filhos, muitas vezes devido ao aumento do uso de contraceptivos. Isso sugere que a relação é causal: o investimento na educação da mulher leva diretamente à queda da fertilidade.
“O alto nível de alfabetização da população de Kerala, especialmente a alfabetização feminina, que é maior do que a de todas as províncias da China, contribuiu muito para tornar possíveis tais diálogos sociais e políticos.”
3. O Efeito Cultural da Televisão e das Telenovelas

Embora a educação e a saúde sejam pilares materiais, as mudanças nas normas sociais são um motor de transformação, e a mídia pode acelerá-las de maneiras surpreendentes.
- A Influência das Telas: Para populações rurais, analfabetas ou de baixa renda, a televisão é o principal meio de se informar sobre estilos de vida diferentes. Muitos programas populares apresentam personagens femininas com mais educação, trabalhando fora de casa e com famílias menores – um forte contraste com a realidade de muitas telespectadoras.
- O Caso Brasileiro: Pesquisadores que estudaram o impacto das telenovelas no Brasil descobriram que a maioria das personagens femininas principais de sucesso nas novelas exibidas no horário nobre (pela Globo, a maior rede do país) tinha um ou nenhum filho. Isso contrastava drasticamente com a taxa de fertilidade real no Brasil, que caiu de quase seis crianças por mulher em 1965 para menos de três em 1999. O estudo estimou que a exposição às telenovelas teve um impacto significativo na redução da taxa de fertilidade.
- Reflexão: Esse datapoint é poderoso porque mostra que o investimento social não precisa ser apenas uma política governamental formal; a difusão de novas ideias e normas culturais, mesmo através do entretenimento, pode ter um efeito tangível no planejamento familiar.
4. O Reversão Contraintuitiva: A Felicidade Traz Mais Filhos

A correlação negativa entre desenvolvimento e fertilidade é clara, mas o Our World In Data destaca uma reviravolta no topo da escada do desenvolvimento.
- A Inversão no HDI: Em níveis muito altos de desenvolvimento (medidos pelo Índice de Desenvolvimento Humano – HDI), a tendência se inverte: a fertilidade para de cair e começa a subir novamente.
- O Que Isso Significa: Após atingir o nível mais baixo de fertilidade (geralmente em valores de HDI entre 0,85 e 0,9), um desenvolvimento ainda maior está associado a taxas de fertilidade mais altas. Embora a causalidade não seja totalmente estabelecida, essa é uma descoberta importante que sugere que o progresso extremo pode amenizar problemas sociais e econômicos ligados ao envelhecimento populacional. Em essência, quando as sociedades se tornam ricas o suficiente para mitigar completamente os custos e as restrições de tempo associados à criação de filhos, o declínio da fertilidade pode ser interrompido e revertido.
Conclusão Reflexiva
A história do declínio da fertilidade é uma história de escolhas e oportunidades. Antigamente, uma família numerosa era uma necessidade de sobrevivência; hoje, é uma escolha. O progresso em termos de prosperidade econômica, acesso à saúde (redução da mortalidade infantil) e investimento em educação feminina removeu as barreiras, permitindo que as pessoas escolhessem ter menos filhos.
Como o Our World In Data deixa claro, o crescimento populacional está, de fato, desacelerando, não devido a crises de mortalidade, mas porque o acesso à abundância — comida, água limpa, saneamento, educação e saúde — permite que as pessoas decidam ter menos filhos.
Com a fertilidade global abaixo do ponto médio histórico e a desigualdade na saúde e prosperidade ainda persistente (com 84% da população mundial vivendo com menos de $30 por dia), somos confrontados com esta questão: Se o progresso e o bem-estar são os maiores impulsionadores da estabilidade demográfica, como podemos garantir que o “progresso que está apenas começando” em áreas como a redução da pobreza extrema e o aumento das liberdades sociais chegue a todos, solidificando as bases de um futuro onde cada nascimento seja uma escolha informada e saudável?






